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Estrada das Tamancas - Paulo RobertoSe não estiver indicado autor, o texto é meu. Respeito direito autoral. |
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August 24 La Carta
Há uma grande carta por ser escrita. O destinatário muda com o tempo. Como a defesa de Joseph K., retrata toda a minha vida. A explicação final. Revelação. Pedido de perdão. Juramento. Pacto. Minha verdade última, tudo que talvez não tenha havido, resultado de leituras irregulares, de vivências inconscientes. O filme em que mergulhei depois daquela dia, sei bem qual, o dia em que escolhi o caminho errado.
Jacó lutou com o anjo do Senhor a noite inteira (Gn, 32,23)
Num dos esboços, interroguei para que tanto ódio (tanto sangue pelo chão, diria o Gil), se amanhã seremos apenas uma recordação dos nossos filhos. Mas o passar dos dias vai borrando parágrafos inteiros, tornando risível o que era drama, tornando patético o que era cômico. Bilhete de suicida. Garrafa de náufrago. Testamento do patriarca. Memória que seria uma sinfonia, mas que é apenas o arranhar das cordas de um violão empenado (perdão Érico, escrevi isso pensando no teu solo de clarineta).
“E se tu não existes, por que existo eu? Para vagar num mundo sem ti?”
Vou encontrando fragmentos dessa carta dentro dos livros, de velhos cadernos. “Cartas pra não mandar” – também aprendi com o Érico, em “olhai os lírios do campo”. É claro, não poderia mesmo ter enviado: dirigem-se a um filho, a um amigo, um amor. São datadas. Tem o sabor do tempo presente. E “a carta” que me subjuga, que me condena ao silêncio, é fora do tempo, é definitiva, eterna.
“O amor não tem pressa
A culpa tem muitos disfarces. Pode ser grande peixe que lanhou as mãos de Santiago e do qual só chegou à praia o espinhaço (o velho e o mar). Em um verso da juventude, cheio de maneirismos, simulei a velhice, a perda da memória, a visão que pouco distingue. Pensei que tinha encontrado um precioso fecho, quando disse deve ser meu filho o homem de cabelo claro que me alcança o chá. August 12 A cama para doisa cama para dois
No último verso de Eros e Psiquê, o herói descobre, vencidos tantos obstáculos, “que ele mesmo era a princesa que dormia” (Pessoa). Ouço e recito uma linda canção de de Charly Garcia. Essas lembranças me vieram como contradita, caminhando pela rua, divagando... Sabe aquele casal que só se encontra em sonho? Eles combinam uma senha para se procurarem acordados (olhos de cão azul, Garcia Márquez, lembra?). Repito minha senha por onde ando e interrogo em vão ao redor. Ricardo diz que eu não entendi nada sobre a alma gêmea. Seja. Gosto de repetir o Shakespeare de propaganda de sabonete “o que o tempo te rouba eu te acrescento”. Há rugas no rosto da minha amada. A mesma absurda espera."Quisiera saber tu nombre, tu lugar, tu dirección y si te han puesto teléfono, también tu numeración(...) Te encontraré una mañana dentro de mi habitación y prepararás la cama para dos.”
May 31 River Phoenix (carta a um jovem ator)
May 02 PrisãoNão lhe consentiam a leitura e a escrita. Mesmo assim, compôs e arquivou na memória um conjunto noventa e nove poemas. Dez a vinte versos cada. Interessa-me o momento em que aceitou “escrever” o primeiro. Por algum tempo, é lícito supor, enxotou as sugestões da inspiração. A falta de tinta e papel, o ressentimento. À certa altura, resignou-se a limar as palavras. Depois, constatou casualmente que retomava o trabalho da véspera. A repetição dos dias mostrou que a memória se comprazia em guardar. Num dado momento, lá estava o poema, nítido, preciso, limpo. Como uma fotografia, foi trabalhosamente tratado. Fixou-se em garamond, in-octavo, papel jornal. Atribuo a insônias intermináveis a concepção da obra, o método, a lenta execução. A tortura da privação transmudada em lenitivo. A composição de um livro puramente mental acabou por lhe parecer a única forma de suportar. Com os aperfeiçoamentos inevitáveis da repetição, o trabalho foi emendando os dias. Num dado momento, o ritmo tornou-se febril. Tinha um plano rígido, trinta e três conjuntos, três subtítulos. Controlou o pensamento e retificou o fluxo da produção, para ajustar-se ao lento escoar do tempo. Na metade do primeiro capítulo, dedicou-se ao índice. Não era possível folhear os versos sem o auxílio de um mapa. O índice demandava títulos, ou um sistema de numeração. Demorada experimentação levou a abandonar ambos. Contentou-se em identificar os poemas pelo primeiro verso (facilidades: verso geralmente curto e poema contido em uma única página). Um imprevisto me obriga a interromper esse relato, que hei de retomar. Pelo que sei, terminou o trabalho; não entendo porque tentou resistir quando o libertaram. April 21 Para Lindsay, Allen Ginsberg
Vachel, the stars are out / dusk has fallen on the Colorado road / a car crawls slowly across the plain / in the dim light the radio blares its jazz / the heartbroken salesman lights another cigarette / In another city 27 years ago / I see your shadow on the wall / you’re sitting in your suspenders on the bed / the shadow hand lifts up a Lysol bottle to your head / your shade falls over on the floor [Paris, May 1958] Trabalho de tradução de Claudio Willer http://www.revista.agulha.nom.br/ag30ginsberg.htm |
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