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    24 August

    La Carta

     

     

     

     

     

     

    Há uma grande carta por ser escrita. O destinatário muda com o tempo. Como a defesa de Joseph K., retrata toda a minha vida. A explicação final. Revelação. Pedido de perdão. Juramento. Pacto. Minha verdade última, tudo que talvez não tenha havido, resultado de leituras irregulares, de vivências inconscientes. O filme em que mergulhei depois daquela dia, sei bem qual, o dia em que escolhi o caminho errado.

     

     

    Jacó lutou com o anjo do Senhor a noite inteira (Gn, 32,23)

     

     

    Num dos esboços, interroguei para que tanto ódio (tanto sangue pelo chão, diria o Gil), se amanhã seremos apenas uma recordação dos nossos filhos. Mas o passar dos dias vai borrando parágrafos inteiros, tornando risível o que era drama, tornando patético o que era cômico. Bilhete de suicida. Garrafa de náufrago. Testamento do patriarca. Memória que seria uma sinfonia, mas que é apenas o arranhar das cordas de um violão empenado (perdão Érico, escrevi isso pensando no teu solo de clarineta).

     

     

    “E se tu não existes, por que existo eu?

    Para vagar num mundo sem ti?”

     

     

    Vou encontrando fragmentos dessa carta dentro dos livros, de velhos cadernos. “Cartas pra não mandar” – também aprendi com o Érico, em “olhai os lírios do campo”. É claro, não poderia mesmo ter enviado: dirigem-se a um filho, a um amigo, um amor. São datadas. Tem o sabor do tempo presente. E “a carta” que me subjuga, que me condena ao silêncio, é fora do tempo, é definitiva, eterna.

     

     

    “O amor não tem pressa
    Ele pode esperar
    em silêncio
    Num fundo de armário
    Na posta-restante”

     

     

    A culpa tem muitos disfarces. Pode ser grande peixe que lanhou as mãos de Santiago e do qual só chegou à praia o espinhaço (o velho e o mar). Em um verso da juventude, cheio de maneirismos, simulei a velhice, a perda da memória, a visão que pouco distingue. Pensei que tinha encontrado um precioso fecho, quando disse deve ser meu filho o homem de cabelo claro que me alcança o chá.

    12 August

    A cama para dois

    a cama para dois

     

     

     

     

     

    No último verso de Eros e Psiquê, o herói descobre, vencidos tantos obstáculos, “que ele mesmo era a princesa que dormia” (Pessoa). Ouço e recito uma linda canção de de Charly Garcia. Essas lembranças me vieram como contradita, caminhando pela rua, divagando... Sabe aquele casal que só se encontra em sonho? Eles combinam uma senha para se procurarem acordados (olhos de cão azul, Garcia Márquez, lembra?). Repito minha senha por onde ando e interrogo em vão ao redor. Ricardo diz que eu não entendi nada sobre a alma gêmea. Seja. Gosto de repetir o Shakespeare de propaganda de sabonete “o que o tempo te rouba eu te acrescento”. Há rugas no rosto da minha amada. A mesma absurda espera."Quisiera saber tu nombre, tu lugar, tu dirección y si te han puesto teléfono, también tu numeración(...) Te encontraré una mañana dentro de mi habitación y prepararás la cama para dos.”